CARRIER E O TERROR: QUANDO AS IDEIAS REVOLUCIONÁRIAS SE TRANSFORMAM EM DELÍRIO GENOCIDA

Existem páginas da história que merecem ser relidas não por um gosto mórbido pelo passado, mas porque iluminam com uma precisão perturbadora certas dinâmicas que não morreram com seus protagonistas. O Terror revolucionário é uma delas. E entre suas figuras mais sinistras, Jean-Baptiste Carrier ocupa um lugar à parte — não tanto pela extensão de seus crimes, mas pelo que eles revelam sobre a mecânica íntima do fanatismo.

UM IDEAL QUE AUTORIZA TUDO

Existem, em todas as épocas, homens que se vestem com as roupas da justiça e da emancipação para melhor esconder — às vezes de si mesmos — uma violência fundamental. Esses grandes revolucionários de salão carregam ideias sedutoras em jantares e tribunas, mas essas ideias, levadas ao seu termo lógico, acabam por autorizar o inominável. A Revolução francesa forneceu o exemplo mais documentado e mais gelado disso.

Não é que a Revolução seja ruim em seu princípio. É que o ideal, quando se torna absoluto, quando se acredita dispensado de qualquer limite moral em nome do bem que pretende servir, transforma-se em uma máquina de triturar. E os homens que acionam essa máquina nem sempre são monstros reconhecíveis. Eles também têm medo.

O TRECHO QUE FAZ MEDITAR

Aqui está o que Louis Blanc relata em sua História da Revolução Francesa, volume XI, sobre os afogamentos de Nantes e seu instigador, Carrier:

Essa ideia horrível dos afogamentos foi proposta, em Estrasburgo, diante de Saint-Just, que a rejeitou com horror. Mas Carrier não era Saint-Just. Ele não hesitou. Apenas resolveu não se comprometer com nenhuma ordem escrita. Fiel, nesse ponto, às máximas de Hérault de Séchelles, com quem mantinha correspondência e que lhe enviava a estranha recomendação a seguir: Quando um representante está em missão e age, deve agir com golpes fortes, deixando toda a responsabilidade para os executores. Nunca deve se comprometer com mandatos escritos. O conselho tinha ainda mais chance de ser bem recebido por Carrier, pois o terror que ele espalhava ao seu redor, ele o carregava dentro de si. Esse homem que causava medo tinha medo.

— Louis Blanc, História da Revolução Francesa, vol. XI

TRÊS LIÇÕES QUE A HISTÓRIA NOS OFERECE

A covardia organizada. Hérault de Séchelles formula aqui, com um cinismo notável, a doutrina da impunidade por delegação: agir com força, não escrever nada, deixar que os executores carreguem o peso moral e jurídico dos atos. Essa é a estrutura de todo sistema genocida moderno — ordens verbais, eufemismos, intermediários. A burocracia do crime.

O medo como motor. Esse homem que causava medo tinha medo. Essa frase de Louis Blanc tem uma densidade psicológica rara. O terror que Carrier infligia não era fruto de uma fria determinação ideológica: era a projeção de sua própria angústia. Os carrascos mais zelosos são frequentemente os mais aterrorizados — pelo fracasso da revolução, por suas próprias dúvidas, pelo medo de serem desmascarados como insuficientemente puros.

O ideal como álibi. Carrier não se via como criminoso. Ele se via como revolucionário. É justamente isso que o torna tão instrutivo para nossa época. As ideias perigosas nunca se apresentam como tais. Elas chegam envoltas no vocabulário da justiça, da igualdade, da necessidade histórica. E é em nome desses ideais que os afogamentos de Nantes ocorreram — entre 1.800 e 4.000 vítimas afogadas no Loire em poucas semanas.

UMA MEDITAÇÃO PARA HOJE

Reler essas páginas é aprender a reconhecer um certo tipo de homem — e de discurso. Aquele que fala de justiça, mas recusa qualquer limite. Aquele que invoca o povo, mas despreza os indivíduos. Aquele que teoriza a violência necessária a partir de um salão confortável, deixando para outros o trabalho de exercê-la. Aquele, finalmente, que não deixa nenhuma marca escrita.

Não se pode deixar de pensar, ao ler a recomendação de Hérault de Séchelles, em outra reunião, cento e cinquenta anos depois: a conferência de Wannsee, em 20 de janeiro de 1942, onde quinze altos funcionários nazistas coordenaram em oitenta minutos a implementação da Solução Final. Lá também, homens educados, juristas, tecnocratas — não brutamontes — se reuniram para organizar a extermínio de milhões de seres humanos. Lá também, a doutrina foi a da delegação: decisões políticas no topo, execução pelos subordinados, e uma terminologia cuidadosamente higienizada para nunca nomear as coisas pelo seu nome. Hérault de Séchelles provavelmente não foi lido por Heydrich ou Eichmann. Mas o método que ele defendia — agir com golpes fortes sem deixar mandatos escritos — descreve com uma precisão gelada a gramática universal de todos os crimes de Estado organizados. A história não se repete: ela gagueja, com meios cada vez mais industriais.

A história da Revolução Francesa, em suas horas mais sombrias, não é um aviso contra a revolta. É um aviso contra a ideologia sem freios, contra a certeza moral absoluta, contra aqueles que acreditam que o fim justifica todos os meios — inclusive os mais abomináveis.

Carrier foi guilhotinado em dezembro de 1794. Mas as ideias que o produziram não morrem tão facilmente.

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Este artigo baseia-se no volume XI da História da Revolução Francesa de Louis Blanc, fonte primária de referência para o estudo do período termidoriano e do Terror.

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